
Uma sala é obra, não é equipamento.
Um cinema privado não é uma lista de aparelhos instalada numa divisão que sobrou. É uma caixa construída dentro da casa, com proporção, massa e silêncio próprios. O que decide o resultado decide-se em obra e no desenho, e o equipamento entra depois, a servir a sala.
Trabalhamos a partir de Guimarães, em habitação privada, ao lado de arquitetos, decoradores e construtores. Entramos antes de as plantas fecharem porque é aí que se decidem as três coisas sem correção possível: a cota do pavimento, o pé direito livre e por onde passam as infraestruturas.
Entrar depois é a norma do mercado, e é por isso que tantas salas ficam a meio. Quando a estrutura já está fechada, o teto já está à cota e as passagens já estão cheias, a conversa deixa de ser sobre o que a sala pode ser e passa a ser sobre o que ainda cabe. Nós preferimos a primeira conversa.
Não somos loja e não vendemos catálogo. Especificamos o que resolve o problema daquela sala, com um número curto de fabricantes escolhidos por critério técnico e não por margem. O tratamento acústico que mais usamos é produzido a menos de meia hora do atelier, o que põe amostras em cima da mesa em dias e permite levar o cliente à fábrica.


Seis frentes, um interlocutor.
Acústica e isolamento, projeção e ecrã, som multicanal e calibração, poltronas e interiores, iluminação e automação, e os trabalhos à medida que nenhuma das outras cinco cobre. Adjudicadas em separado, estas seis frentes transformam o cliente, ou o arquiteto, em gestor de projeto sem que ninguém lho tenha pedido, e a primeira coisa que se perde é a resposta a quem é a culpa quando a porta acústica não fecha na medida do aro. Aqui as seis pertencem ao mesmo contrato, ao mesmo desenho e à mesma pessoa.
O que não está medido é opinião.
Cada sala é entregue com relatório: tempo de reverberação por banda, resposta em frequência lugar a lugar, níveis de referência e a lista do que foi corrigido para lá chegar. Não é um anexo de cortesia: é o documento que permite a um terceiro verificar o nosso trabalho sem depender da nossa palavra.
Escrevemos o compromisso, e não só o resultado. Em cada projeto houve uma decisão tomada contra alguma coisa: contra a área disponível, contra o pé direito, contra o orçamento ou contra o desenho de quem projetou a casa. Uma sala descrita como perfeita lê-se como publicidade; uma sala descrita com a decisão difícil lê-se como ofício.
E há uma coisa que não se resolve por escrito. O momento em que a luz baixa, o silêncio de uma sala isolada e o primeiro plano de graves que se sente no peito e não se ouve na divisão ao lado não cabem numa ficha técnica. Por isso mantemos uma sala aberta a quem desenha: venha ouvir antes de decidir, e traga o cliente depois.

